|
|
![]() |
Você teria dificuldades para implantar uma Oficina dos Sentimentos ou algo similar em sua Casa Espírita?
Na verdade, o que ocorre na casa onde freqüento são grupos de 10 a 30 pessoas, portanto, não palestras, nos quais estudamos, principalmente, três obras, sendo cada uma de um grupo. Tais obras são: Renovando Atitudes (Hammed, Francisco do Espírito Santo Neto), Reforma Íntima Sem Martírio (Ermance, Wanderley), Seara Bendita (Espíritos diversos, Wanderley e Maria José). No rádio estudamos Renovando Atitudes e recentemente fui convidado por uma outra casa espírita para ministrar lá estudos de Reforma Íntima Sem Martírio.
Em nossos estudos não seguimos com rigor os capítulos de cada livro. O que fazemos é discutir o conteúdo de cada lição dentro de nossas necessidades. Então eu, como coordenador desses grupos, antes de fazer qualquer leitura dos textos, contextualizo o tema, vejo o que os participantes têm a dizer sobre, como que tais temas se repercutem neles e, em nossos grupos, tentamos banir a postura do “em tal livro fulano diz isso ou aquilo”. Prezamos a autodefinição dos temas e o expressar dos sentimento e idéias pessoais acerca daquele tema.
Outra coisa que acontece em nossas OS é que não temos um limite de dias para estudar as lições das obras, pois seguimos nossas necessidades. Por exemplo, se o tema for fé, e eu, como coordenador do grupo, perceber que a necessidade é estudar melhor a questão dos pensamentos e da vontade, faremos isso. Quando eu digo que estudamos as obras citadas, não quis dizer que somos “escravos” delas. Pelo contrário, elas são apenas um complemento ou, talvez, um roteiro de temas para seguirmos. Mas esses temas são aprofundados e discutidos dentro daquilo e da forma que o grupo necessita.
Às vezes acontece de nem entrarmos no livro, já que o grupo apresenta, naquele dia, uma atmosfera emocional que nos leva a desenvolver outro tema, que esteja voltado à necessidade dos participantes naquele momento.
Como percebemos essa “atmosfera emocional”?
É o seguinte: eu me lembro que estava lendo um artigo científico de um professor e ele disse que, uma técnica que havia inventado e deu certo para os alunos se unirem mais, foi a técnica do “Como vai você?”. E nessa dinâmica de grupo, ao invés da pessoa dizer “eu estou bem” ou “estou mais ou menos” ou “estou péssima”, ela tem de se encaixar em uma escala, que vai de 1 a 5. Não existe 0 nem 10.
Então se você estiver 1, não está muito bem; se estiver 2, está um pouquinho melhor; 3 é regular; 4 é bem e 5 é ótimo, radiante. Nessa escala, se você, por exemplo, estiver 3 e quiser justificar o porquê de estar assim, você pode. Ou seja: “estou 3, porque tive vários conflitos em minha família essa semana e as coisas no meu trabalho não vão bem.”
Se a pessoa só quiser falar o número, e nada mais, respeitamos. Mas o grupo saberá como ela se sente a partir do número que fala.
Voltando à história do professor, ele percebeu, depois de alguns meses, que a sala estava ficando mais unida, uma vez que quando algum aluno dizia que estava 1 ou 2, a maioria olhava de uma maneira assustada, como se estivesse pensando: “Nossa, o que aconteceu com o fulano?”, e no intervalo, alguns alunos iam conversar com aquele que estava 1, tentando ajudá-lo de alguma forma.
Em nossas OS, para eu perceber a condição emocional do grupo, eu faço essa dinâmica primeiro e, dependendo do que sair, é o tema a se discutir. Em muitas vezes, eu programo algo para falar a partir das idéias do livro estudado, mas no decorrer dessa dinâmica, quando muita emoção é expressada, o tema é mudado e acabo falando sobre outra coisa. Exemplo: eu meu lembro que a semana passada, tínhamos dito ao grupo que o tema seria “fé”, já que era a próxima lição do Renovando Atitudes. Mas na dinâmica do “Como vai você?”, a queixa e os grandes conflitos do grupo em geral estavam girando em torno de relacionamentos, e fomos nós lá discutir relacionamentos à Luz da Doutrina.
Então, nós seguimos as obras, mas sem qualquer pretensão de acabar nessa ou naquela data. Eu, como coordenador, não tenho pressa de acabar os livros e não estou na casa espírita sob pressão para finalizar os ciclos de estudo de minha responsabilidade. Quando se trata de trabalho com sentimentos e conscientização de Espíritos em relação a si próprios, não se pode apressar nada nem deixar o estudo virar marasmo. Deve-se ser sensível o bastante para ficar mais tempo em dada discussão ou menos tempo em outra.
Uma coisa que todos devemos atentar em relação a uma OS é que não é a informação explanada que conta principalmente, nem mesmo se o tema for “pensamento” ou “preconceito”, mas a conscientização que os participantes vão construindo de si mesmos no decorrer da OS em relação ao tema.
E muito embora o coordenador, que na verdade é um facilitador de discussões, fale mais, ele deve questionar a todo instante todos do grupo para que estes formem novos conceitos sobre determinada temática, enriqueçam a discussão com ilustrações que vivenciaram e se proponham a modificar-se a partir da conscientização construída em grupo.
Em meus grupos, por exemplo, às vezes o estudo é construído pela própria fala dos participantes, com suas experiências, conhecimento doutrinário e dúvidas. Outras vezes, quando sinto a necessidade de alimentar o grupo com explanações inteiramente minhas, todos prestam atenção ao que tenho a dizer. Muitas vezes, gosto de usar a lousa para expor melhor os pensamentos. E nestes momentos, a Espiritualidade Maior tem uma forte inspiração sobre mim e jamais falo aquilo que está escrito na lição estudada, mas complemento o assunto do livro.
Em minhas explanações ou palestras, eu nunca tenho a postura unilateral. Sempre questiono o grupo e não vou à frente com o tema enquanto não obter respostas e participações daqueles que me ouvem. Odeio estudos mortos, ou seja, aqueles em que só se ouve a voz do coordenador e todos “dormem” ou ficam cômodos na postura de receptáculos de informação. A Pedagogia do Espírito é dinâmica. Ela existe para conscientizá-lo de sua essência e, a partir disso, ajudá-lo a promover a própria libertação. Estudos que não questionam, que não promovem a participação de outros, além do palestrante, estão ultrapassados. E isso independe do número de pessoas assistindo.
Voltando à dinâmica do “Como vai você?”, é muito comum ter companheiros que choram, que dizem que já não sabem mais o que fazer, entre outras coisas. Há também pessoas, principalmente as novas no grupo, que são secas ao falar como estão. Mas, nesse caso, eu, com a ajuda espiritual, começo a questioná-las profundamente de modo que elas saiam do trivial e se mostrem como Espíritos que são. Não forço nada. Se eu perceber que a pessoa está ficando muito incomodada (já que incomodados todos ficam quando a dinâmica do “Como vai você?” se inicia), eu passo para o próximo companheiro.
E o que percebo em geral é que todos gostam da dinâmica, já que é um momento em que saem do “vou bem, obrigado.”
Nós iniciamos o estudo e o encerramos com uma prece, e ao fundo música suave.
Também fazemos, dependendo da necessidade do grupo, relaxamentos mentais e dinâmicas para melhor trabalharmos emoções desajustadas e o autoconhecimento. E isso é muito importante. Às vezes, no grupo, os participantes não estão “abertos” a trabalhar o intelectual, discutindo tal ou qual assunto. Então, percebendo isso, é hora de trabalhar, naquele dia, mais o lado emocional. Dessa forma, fazemos dinâmicas só com músicas calmas e minhas sugestões para os companheiros viajarem para dentro de si, perceberem como estão suas emoções e ensejarem o autoreajustamento emocional.
Ou seja, existem dias em que não falamos nada. Apenas nos doamos à dinâmica que vêm à minha mente na hora com a finalidade de cada um se tranqüilizar mais e se perceber melhor para se reajustar. Detalhe: na maioria das vezes em que promovo essas dinâmicas, não havia preparado a dinâmica em casa, pois não sabia que a necessidade do grupo seria trabalhar mais o emocional naquele dia. Nesses momentos, me abro para as inspirações dos Irmãos Superiores para conduzir da melhor forma possível a “viagem para dentro” dos participantes.
Esse é um outro ponto que o coordenador de uma OS deve prezar. Nem sempre é a necessidade do grupo trabalhar o intelectual, a partir de discussões. Às vezes, é hora de parar e estabelecer o contato íntimo através de sugestões de um terceiro e harmonizar as descompensações internas. Assim, nesses momentos, existe a prática da internalização e do autoconhecer.
Quanto a pessoas que não têm conhecimento da doutrina, eu as permito ficar nos estudos sem quaisquer problemas. O Espiritismo não trabalha aspectos exclusivistas com seus ensinamentos doutrinários, mas elementos universais do ser humano, independente da religião ou filosofia de vida das pessoas. O que acontece nesses casos, às vezes, é que quando estou tratando de termos mais técnicos doutrinários como, por exemplo, perispírito, então peço à pessoa inexperiente na doutrina esperar um pouco mais depois do final do estudo para eu explicar melhor o tema. Nesse instante, também aproveito para indicar bibliografia básica para que ela se aprofunde melhor no assunto.
Em relação
a criar uma OS em meu lar, acho que meu relacionamento com os mais próximos
não está tão maduro para iniciar tal trabalho. Eu
adoro minha família, não temos brigas, nos respeitamos, mas
no quesito “diálogo profundo e verdadeiro” ainda precisamos trabalhar
bastante. Como já disse em outro e-mail, eu, com minha família,
não tivemos a cultura do diálogo. Então, por ora,
não conseguiria iniciar uma OS em meu lar.