
Ainda invadidos pelos sentimentos sublimes despertados pelo
inesquecível conclave ora encerrado na cidade de Goiânia, trazíamos nossa mente
imersa em profundas meditações acerca do quanto a ser feito ante as
perspectivas descerradas.
No momento azado, dirigimo-nos para o salão onde se daria o
conclave. Chegamos minutos antes no intuito de rever companheiros queridos que
labutavam em plagas distantes e que, a convite de Bezerra, mantiveram-se ali
após o congresso exclusivamente para ouvir-lhe a palestra.
A lotação era para cinco mil participantes e não havia lugares
desocupados. Eram os trabalhadores do evento ora realizado, militantes da Seara
em outros continentes, poetas, educadores, seareiros dos primeiros tempos,
personagens da história brasileira, enfim, grupo imenso; todos comprometidos
com os destinos do Espiritismo. Representações de caravaneiros de todos os
estados brasileiros e dos países participantes do magno evento também estavam
presentes, além dos servidores anônimos que se prestaram aos mais variados
serviços de amparo e defesa pelo bem da tarefa concluída no plano físico.
Seria impossível relacionar todos, mas com intuitos que atendem a
nossas ponderações do momento destacamos a presença de Robert Owen (o filho),
César Lombroso, Humberto Mariotti, Milton O'Relley, Anita Garibaldi, Helena
Antipoff, Edgard Armond, Torteroli, Jean Baptiste Roustaing, Benedita
Fernandes, Deolindo Amorim, Herculano Pires, Carlos Imbassahy, Freitas Nobre,
Toulosse Lautrec, Tarsila do Amaral, Frederico Fígner, Cassimiro de Abreu,
Olavo Bilac, Castro Alves, Antônio Wantuil de Freitas, Alziro Zarur, Rui
Barbosa, Antônio Luiz Sayão, Antônio Olímpio Telles de Menezes, Cairbar
Schutel.
Fomos chamados para o instante aguardado. Uma pequena e singela
mesa com um belíssimo ornamento de flores embelezava o palco ao lado de potente
aparelho sonoro dirigido ao grande público presente. Tudo guardando extrema
simplicidade. Sem cerimônias e delongas, após oração comovida por parte de
nosso condutor é passada a oportunidade ao imbatível “médico dos pobres”(2):
UM NOVO TEMPO PARA O MOVIMENTO ESPÍRITA
Irmãos, Jesus seja nossa inspiração e Kardec a luz de nossos
raciocínios.
O cinqüentenário do acordo de unificação, o Pacto Áureo, ainda
agora enaltecido pela comunidade espírita mundial, é vitória de incomensurável
quilate espiritual para a glória do Espiritismo. Os esforços não foram em vão.
Passado o conclave nosso olhar se volta, mais que nunca, para o
futuro.
Sem demérito de qualquer espécie a corações que têm feito o melhor
que podem, os que aqui se encontram presentes conhecem de perto a extensão das
necessidades com as quais estamos lidando.
E ainda agora, enquanto muitos se encontram inebriados com a nobre
comemoração face às conquistas logradas em meio século de serviço austero,
atentemos para o quanto nos falta caminhar, a fim de merecermos com justiça o
título de Cristãos da nova era.
EVOLUÇÃO CRONOLÓGICA DAS IDÉIAS ESPÍRITAS
Desde as primeiras idéias para a formação das bases organizativas
do movimento, são passados quase cem anos. O progresso é evidente.
Entretanto, não será demais e insano afirmar que, a despeito das
conquistas, encontramo-nos na infância de nosso movimento libertador ante a
envergadura da missão a nós confiada na humanidade.
A progressão do ideário espírita está em boas mãos e a Falange
Verdade continua o programa com sucesso, não obstante os empecilhos que são
variados.
Inteiremo-nos com acerto sobre o que o momento espera de todos e
façamos o que for preciso, a fim de impedirmos o prolongamento da conveniência
prejudicial ao prosseguimento de planos maiores.
Os primeiros setenta anos do Espiritismo constituíram o período da
consagração das origens e das bases em que se assentam a Doutrina, que lhe
conferiram legitimidade. Heróis da tenacidade e fibra moral, dispostos a
imolar-se pela causa, venceram o preconceito do tempo e a pressão da
inferioridade humana no resguardo e defesa da empreitada de Allan Kardec. O
último lance que delimitou esse período foi o Congresso Internacional de Espiritismo
realizado em Paris (3), onde o arauto do bem, Leon Dénis, suportou a lâmina
sutil da mentira e consolidou o perfil definitivo do Espiritismo como Doutrina
dos Espíritos, eximindo-a de desfigurações que em muito prejudicariam sua
feição educativa e conscientizadora.
O segundo período de mais setenta anos, que coincide com o
fechamento do século e do milênio, foi o tempo da proliferação. Uma
idéia universal jamais poderia ficar confinada a grupos de estudo ou
experimentos da fenomenologia mediúnica de materialização; fazia-se necessária
a intensificação dos conhecimentos dentro de um crescimento ordenado e
defensivo na elaboração de um perfil filosófico. Eis o mérito das entidades
promotoras da unificação e da multiplicação de centros espíritas. Sob o regime
de controle e zelo foram predicados os seus objetivos primaciais. A literatura
subsidiária provocou o questionamento, a discussão, o estudo, e com isso o
aprendizado dilatou-se.
A primeira etapa consagrou o Espiritismo como ideário do bem,
atraindo a simpatia e superando o preconceito; a segunda ensejou a difusão.
Penetramos agora o terceiro portal de mais setenta anos, etapa na qual
pretende-se a maioridade das idéias espíritas
É necessário atestar a vitalidade dos postulados espiritistas como
alavanca de transformações sociais e humanas. Sua influência na cultura, nas
artes, na ciência, nas leis, na filosofia e na religião conduzirá as
comunidades, que lhe absorverem os princípios, a novos rumos para o bem do
homem através da mudança do próprio homem.
Esse novo tempo deverá, igualmente, conduzir a efeitos salutares a
nossa coletividade espírita, criando entre nós, seus adeptos, o período da
atitude. O velho discurso sem prática deverá ser substituído por efetiva
renovação pela educação moral. É a etapa da fraternidade na qual a ética do
amor será eleita como meta essencial, e a educação como o passo seguro na
direção de nossas finalidades.
Jesus definiu seus discípulos por muito se amarem, o Espírito
Verdade assinalou o “amai-vos e instrui-vos” como plataforma do verdadeiro
espírita, e esses ensinos deverão constituir a base do programa transformador
para nossas metas ante a era nova.
Assim como nas demais fases foram programadas reencarnações
missionárias, a exemplo do que sucedeu no iniciar dos séculos XIX e XX,
igualmente se apronta uma geração nova para os novéis ofícios da causa, dentre
os quais muitos de vós aqui presentes estão esclarecidos sobre seu auspicioso
retorno às fileiras do Consolador em missões de solidariedade e renovação,
enquanto os que guardam maiores compromissos na vida extra-física estão
conscientes dos desafios que a todos nos esperam.
Descrevamos algo de essencial acerca dessas batalhas que
enfrentaremos, para não localizarmos o “joio” onde está o “trigo” e definirmos
melhor as estratégias de ação.
NOSSO MAIOR INIMIGO: O ORGULHO
Afirmamos outrora que o serviço da unificação é urgente, porém,
não apressado(4). Verificamos no tempo que alguns corações sinceros e leais,
entretanto, sem larga vivência espiritual, inspirados em nossa fala, elegeram a
lentidão em nome da prudência e a acomodação passou a chamar-se zelo,
cadenciando o ritmo das realizações necessárias ao talante de propósitos
personalistas na esfera das responsabilidades comunitárias. O receio da
delegação, a pretexto de ordem e vigilância, escondeu propósitos hegemônicos em
corações desavisados, conquanto amantes do Espiritismo. Em verdade, a tarefa é
urgente, não apressada, mas exige ousadia e dinamismo sacrificial para encetar
as mudanças imperiosas no atendimento dos reclames da hora presente, e o hábito
de esperar a hora ideal converteu-se, muita vez, em medida emperrante.
Ninguém pode vendar os olhos a título de caridade, porque deliberadamente
o apego institucional marcou esse segundo período de nossas lides, em
muitas ocasiões, com enfermiças atitudes de desamor como forte influência
atávica de milenares vivências. Isso era previsível e, por fim, repetimos
velhos erros religiosos...
Honrar e respeitar os antepassados e a história não significa
aboná-la de todo, embora os nossos sentimentos devam ser enobrecidos no perdão,
no entendimento, na oração e no trabalho. Foi o melhor que conseguimos em se
considerando as imperfeições que nos são peculiares.
Na seara espírita, que declara inspirar sua ação em Jesus, o
Mestre operoso, e em Kardec, o infatigável trabalhador, não deve haver o pacto
insensato com os privilégios e a representatividade improdutiva. Se o Senhor
deixou definido que o maior seria quem se fizesse servo de todos (5), de igual
forma a função das entidades doutrinárias, de qualquer âmbito, é servir e
servir sempre, mais e mais, no atendimento das extensas necessidades a vencer
nas lavouras doutrinárias, cumprindo o roteiro dos deveres de orientação e
apoio sem jamais avocar para si direitos ilusórios no campo do poder.
Há de se ter em conta que nos referimos ao institucionalismo como
grilhão pertinente a todos nós, sem jamais vinculá-lo a essa ou àquela entidade
organizativa em particular, porque semelhante marca de nosso psiquismo, por
muito tempo ainda, criará reflexos indesejáveis na obra do bem.
O institucionalismo é fruto da ação dos homens; ele em si não é o
nosso adversário maior e sim os excessos que o tornam nocivo.
Nosso maior inimigo, de fato, é o
orgulho em suas expressões inferiores de arrogância, inflexibilidade,
perfeccionismo, autoritarismo, intolerância, preconceito e vaidade, seus frutos
infelizes que, sem dúvida, insuflam a institucionalização perniciosa e incentivam
o dogmatismo e a fé cega, adubando a hierarquização e o sectarismo.
Seus frutos geram sementes, e precisamos interromper essa
semeadura do “joio” que sustenta a ilusão de trabalhadores desprevenidos e
invigilantes.
Quando os homens forem bons farão boas instituições(6), asseverou
o insigne apóstolo de Lyon, Allan Kardec.
Nossa luta deve ser íntima e não exterior, não contra
organizações, mas contra nós mesmos quando em atitudes praticadas sob o manto
da mentira que acostumamos a venerar em favor de vantagens pessoais.
Esses desvios perpetrados lembram os primeiros momentos do
Evangelho sobre a Terra, quando teve circunscrito seu raio de ação ao Judaísmo
dominante. Tal realidade levou o Mais Alto a chamar o espírito corajoso e nobre
de Paulo de Tarso na ingente missão de servir para além dos muros
institucionais da capital do religiosismo, e tornar universal a mensagem do
Sábio Pastor.
Conclamamos novos apóstolos para a “gentilidade” nesse momento
delicado de nossa seara, porque o orgulho humano reeditou, em larga amplitude,
os ambientes estéreis à propagação dos ensinos do Senhor. Temos um novo centro
de convergência estipulado pela egolatria humana, buscando fixar estacas
demarcatórias injustas e dispensáveis para o futuro glorioso da religião
cósmica da verdade e do amor.
Essa velha bagagem da alma tem solução. Melhorando os homens,
melhoramos as instituições. Por isso, nossa meta prioritária jamais foi ou será
incentivar dissidências a fim de comprovar a eficácia de alguma ideologia,
porque, em verdade, todas cooperam para um destino comum no futuro.
Apenas não podemos mais adiar medidas, esperando que os homens
acordem naturalmente para as realidades que os cercam, junto às perigosas
investidas levadas a efeito pelos inimigos confessos do Evangelho do Cristo na
humanidade, em ambos os planos da vida. A hora é de ação e campanha para
chamar na Estrada de Damasco os que queiram suportar o sacrifício, a renúncia e
a obstinação em nome de uma nobre causa que é libertar a mensagem de Jesus dos
círculos impregnados de bazófia e fascinação, através de exemplos de vida e do
serviço construtivo de uma mentalidade em plena identificação com a mensagem
moral do Espiritismo Cristão.
A hora pede clareza e determinação para a segurança dos ideais.
Há um momento em que a atitude de amor pede a verdade a fim
de escapar dos pântanos da omissão. Estamos nesse momento. As diretrizes do
Espírito Verdade não pactuam com as conveniências, embora não incentive o
desamor. Esse tempo é daqueles que souberem ser coerentes, sem que a coerência
custe o preço da discórdia tempestuosa. O desagrado existirá, porque a verdade
incomoda quem se acostumou aos caminhos largos. Estamos no tempo dos “caminhos
estreitos”, e os que aceitarem perlustrá-lo não terão as coroas de glórias
passageiras e nem a aclamação geral dos distraídos do caminho. Serão taxados de
egoístas simplesmente por decidirem buscar a “contra-mão” das opiniões e a
percorrer o caminho inverso das consagrações humanas. Entretanto, terão um
“contrato de assistência” permanente e irrevogável para angariarem as condições
justas ao desiderato. Contudo, justiça aqui não significa facilidades, mas ação
mediadora da Divina Providência para o bom andamento dos labores encetados.
Temos grupos dispostos a comprometer-se com os misteres da hora a custo de
sacrifício; eles serão os apóstolos da “gentilidade” dos tempos modernos.
Respeitaremos em nome do amor a quantos ainda estagiam nas
formalidades e convencionalismos. Firmaremos bases seguras fora dos limites da
conveniência, para assegurar, aos mais novos que chegarão, a oportunidade de
vislumbrarem horizontes que atendam as suas exigentes expectativas, com as
quais renascerão no soerguimento desse período de moralização e atitude, nesse
momento de Espiritismo por dentro e não fora de nossos corações.
Carecemos de um movimento espírita forte, marcado por uma cultura
de raciocínios lógicos e coerentes, e por atitudes afinadas com a ética do
amor.Temos sim um problema, temos um inimigo. Atitude, eis a questão. Más
atitudes, eis nosso problema. Atitudes de orgulho, nosso maior inimigo.
NOSSA META ESSENCIAL: O AMOR
Para que não nos chafurdemos em análises míopes, torna-se
prioritário definir nossa grande meta em auxílio aos que mourejam na
coletividade doutrinária, para maximizarem seus esforços nas direções mais
nobres e úteis aos deveres dessa nova etapa de maioridade espiritual.
A meta primordial é aprendermos a amarmo-nos uns aos outros, para que tudo o que for criado em nome da causa espírita reflita
a essência do Espiritismo em nossas movimentações.
Nossa meta essencial é o amor, a atitude
que reflete Deus em nós.
Meditemos na inolvidável pergunta do Mestre: Que galardão teremos
em amar somente os que nos amam? (7)
A diversidade é uma realidade irremovível da Seara e seria utopia
e inexperiência tratá-la como “joio”. Imprescindível propalar a idéia do ecumenismo
afetivo entre os seareiros, para que a cultura da alteridade seja
disseminada e praticada no respeito incondicional a todos os segmentos. A
atitude de alteridade será o termômetro do progresso das idéias espíritas no
movimento, será o “trigo” vicejante e plenificado na ética da fraternidade
vivida. As instituições embebidas desse espírito promoverão o diálogo franco e
transparente e construirão através das relações as transformações. O desafio
está lançado.
Temos como certo que as barreiras de aproximação estão mais
frágeis que se imagina em alguns setores, embora muitos apostem na
impossibilidade de rompê-las. Falta habilidade para conduzir processos que
desafiam a inteligência das direções segmentares, e, não propriamente, o desejo
de efetivá-las. Precisaremos todos de muita humildade para construir um terreno
neutro como frisou Kardec (8), e de muito amor para garantir perpetuidade às
novas relações de pluralismo e convivência com as diferenças.
Voltemos a atenção para a influência dos exemplos cristãos que
constituem referências decisivas para os que, legitimamente, anseiam empreender
o discipulado com Jesus e Kardec. Apesar das lutas humanas, necessárias e
naturais, não faltaram e não faltam as balizas na Seara para que os espíritas,
dispostos ao desafio de superar a si mesmos, encontrem inspiração para travarem
o bom combate em direção ao crescimento e à libertação. A jornada é árdua e o
calvário é doloroso, por isso muitos preferem as poltronas macias de valores
temporais nos regimes institucionais.
No entanto, a despeito da certeza que guardamos sobre a atitude de
amor, devemos estar conscientes sobre as sendas a seguir, a fim de não
permitirmos romantismo e ingenuidade num momento de lutas ingentes. Para isso,
divulguemos a diretriz a tomar para que não aprisionemos tal meta nos sonhos
fantasistas do menor esforço e das crenças improdutivas.
NOSSA DIRETRIZ INSUPERÁVEL: A RENOVAÇÃO DE ATITUDES
A renovação de atitudes na edificação de uma nova mentalidade
solicita uma inevitável mudança cultural em nossos ambientes doutrinários.
O repúdio ao debate e a aversão ao confronto de opiniões são expressões do institucionalismo
que ainda estão presentes no psiquismo humano, muita vez realimentado por
organismos e oradores respeitáveis.
Quando Jesus convocou seus discípulos ao serviço do amor “deu-lhes
poder”, conforme assevera o texto de Mateus(9). Reeditar esse fato é
fundamental, a fim de alcançarmos melhores condições morais ao movimento
espírita. Conferir poder é propiciar respostas, caminhos, horizontes,
alternativas pedagógicas para instrumentalizar e capacitar alguém para alguma
coisa. O Mestre, como educador, após os ingentes deveres públicos do dia,
recolhia-se em colóquios íntimos com os corações dos apóstolos, ampliava-lhes
as perspectivas sobre os ensinos, dimensionava as realizações extra-físicas em
torno dos feitos de todo o grupo, e respondia a questões símplices, porém, de
rara profundidade moral. Era ali, naqueles momentos íntimos, que se efetivava o
poder de percepção e o desenvolvimento das condições necessárias ao apostolado,
porque havia debates sinceros e resolução de conflitos em clima pacífico, sob a
tutela do Senhor.
Hoje, mais que nunca, precisamos repetir tal episódio e permitir o
“espírito do Senhor” na contenção de nossos impulsos de desagregação e
isolamento. É urgente trabalhar por uma cultura de trocas e crescimento
grupal, habituando-se a ter nossas certezas abaladas pelo conflito e pela
permuta, para que ampliemos a capacidade de enxergar com mais exatidão as
questões que supomos terem sido esgotadas. Essa diretriz conduzirá os homens a
uma maior possibilidade de diálogo e intercâmbio, fazendo-os perceber a
inconveniência do isolamento em muros de pseudo-sabedoria ou nas masmorras do
autoritarismo institucional, ditando normas e idéias em nome de uma verdade
exclusivista. Daí a importância de incentivarmos os dirigentes ao contato sadio
com a dinâmica operacional dos centros espíritas e dos diversos segmentos da
Seara, estabelecendo contatos, atualizando conceitos, tirando dúvidas,
agendando encontros, criando ensejos ecumênicos para servirem de exemplos aos
menos afeiçoados ao hábito da complacência com a diversidade do entendimento.
A melhor instituição será a que mais expandir as condições para o
amor.
O melhor homem será o que mais apresentar tenacidade em amar.
A melhor Casa será a que mais implementar o regime de amor em
grupo, imprimindo a seus deveres um caráter educacional.
Os heróis da fibra moral estão despedindo-se da Terra, porque
cumpriram seu ministério de amor. Agora é o tempo dos atos solidários pela
união das forças, relembrando o calvário no qual Jesus despediu-se glorioso,
conferindo a continuidade da obra a quantos partilharam Seu percurso Divino.
Melhoremos o homem, despreocupemos dos excessos de medidas quanto
à renovação de modelos institucionais que, inevitavelmente, surgirão sem
pressa. Urgente é nossa adesão consciente aos princípios éticos da mensagem de
Jesus atualizada pelo Espiritismo, sem o qual os modelos organizativos, por
mais ajustados, vão ruir improfícuos.
Carecemos estabelecer programas centrados em valores éticos ao
lado das bases fundamentais já esquadrinhadas pelo estudo. Favorecer os
trabalhadores e lideranças com melhores noções sobre “As Leis Morais”, contidas
na terceira parte de “O Livro dos Espíritos”, e aprofundar o entendimento sobre
o inesquecível e universal sermão do monte de Jesus, assim como o fez Allan
Kardec em “O Evangelho Segundo Espiritismo”, construindo um programa
eficiente de renovação moral baseado na sábia filosofia de Jesus.
O conhecimento das verdades espíritas, por si, levará a velhas
mazelas do saber se não for acompanhado pela vivência.
O fascínio resultante dos princípios espíritas não ocorre em
função de estar o homem diante de conhecimentos novos que o surpreendem, mas
sim porque está retomando o contato com idéias que já fizeram parte de seu
patrimônio cultural, as quais não teve ele a capacidade de utilizar para a
transformação de si mesmo, submetendo-se às injunções das idéias pagãs e do
rompimento com a ética do bem. Destarte, é preciso hoje conjugar esse
conhecimento, que é milenar, com a moralização, pela educação.
O tão decantado processo educacional de si mesmo passa pela melhor
compreensão do mundo moral e suas implicações, que resultarão em melhor
auto-conhecimento, pois, o “conhecimento de si mesmo é a chave do progresso
individual”.(10)
Esse investimento no homem é a nossa chance de subtrair a noção
inferior, que tenta subjugar o Espiritismo a mera religião de formalidades
atualizadas, e colocá-lo, onde deveria estar, no patamar de roteiro lúcido de
educação integral da humanidade.
A diretriz insuperável de Jesus continua como roteiro de rara
oportunidade. Precisamos “conferir poder”. Como amar o próximo? Como obter
abnegação? Como treinar a alteridade? Comprometimento é difícil para quem? É
possível desenvolver a indulgência? Como dialogar em climas adversos? Como
dialogar? O que é solidariedade e parceria? Como conceber a unificação em
tempos de pluralismo? Ela é viável? Como oferecer essas condições de “poder”
aos novos servidores da causa cristã? Qual o poder de transformação estamos
viabilizando a homens comuns que encontram esperanças e alento nos celeiros de
paz da casa espírita? Que temos feito para que as direções abram-se ao espírito
de simplicidade? Que propostas temos a apresentar para facilitar um tempo de
aproximação pacífica entre as várias tendências da Seara? Por que é tão
importante essa aproximação?
O Espírito Verdade legou-nos o inspirado roteiro no “amai-vos e
instruí-vos”. Instrução e amor, conhecimento e dinamização ética.
Levantemos a bandeira da unificação ética em torno da qual
ser-nos-á possível atrair pela ação, mais que pelo discurso, ensejando a
formação de pólos de congraçamento ecumênico entre nós, os espíritas com
diversidade de idéias, mas num único sentimento, o do amor exalando a
fraternidade.
Tomemos como lema a tríade inspirada do Codificador “trabalho,
solidariedade, tolerância” (11), e cerremos esforços na campanha para que
essa indicativa torne-se o programa da Casa e do movimento espírita mundial.
O trabalho opera as mudanças pela força das circunstâncias, a tolerância
cria o clima indispensável para torná-las possíveis e a solidariedade é a mola
propulsora capaz de fazê-las acreditáveis.
De que nos valerá conhecer a imortalidade e viver intencionalmente
o materialismo? Essa foi uma indagação levantada pelo Codificador com fito de
chamar-nos a atenção para a essência ética do Espiritismo.(12)
Se Kardec assim indaga quanto ao Espiritismo, perguntamo-nos de
que nos valerá o Evangelho sem a vivência? Por que chamar Jesus se não
atentamos para Sua presença no desenvolvimento de relações eticamente ajustadas
com Seus ensinos?
Enveredemos pela religião, pela filosofia ou pela ciência,
estudemos o Espiritismo ou o Evangelho, adotemos essa ou aquela prática com a
qual melhor nos afeiçoemos, criemos essa ou aquela entidade para servir a novas
experiências, tudo isso pouco importa se não tivermos amor. Recordemos o
apóstolo Paulo em sua belíssima poesia: “Ainda que eu falasse as línguas dos
homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como
o sino que tine”. (13)
NOSSO CAMINHO DE SOLUÇÃO: A EDUCAÇÃO
Qual a solução?
Mencionamos a meta prioritária, conhecemos a diretriz insuperável,
mas todos sentimos um vácuo no coração quando pensamos nesse ideário maior
confrontado com a realidade moral de nosso movimento bendito. O que fazer já
sabemos. A indagação que agora toma-nos a mente é: como fazer?
A melhor campanha para a instauração de um novo tempo na Seara
passa pela necessidade de melhoria das condições do centro espírita, que é a
célula operadora do objetivo do Espiritismo. Lá sim se concretizam não só o
conhecimento e o trabalho, mas a absorção das verdades no campo individual
consentidas em colóquios íntimos e permanentes, que reproduzem os momentos de
Jesus com seu colégio apostólico.
Por isso, temos que promover as Casas, de posto de socorro e
alívio a núcleo de renovação social e humana, através do incentivo ao
desenvolvimento de valores éticos e nobres capazes de gerar a transformação.
Para isso só há um caminho: a educação.
O núcleo espiritista deve sair do patamar de templo de crenças e
assumir sua feição de escola capacitadora de virtudes e formação do homem de
bem, independentemente de fazer ou não com que seus transeuntes se tornem
espíritas e assumam designação religiosa formal.
Elaboremos um programa educacional centrado em valores humanos
para dirigentes, trabalhadores, médiuns, pais, mães, jovens, velhos, e o
apliquemos consentaneamente com as bases da Doutrina.
Saber viver e conviver serão as metas primaciais desse programa no
desenvolvimento de habilidades e competências do espírito.
O que faremos para aprender a arte de amar? Como aprender a
aprender? Como desenvolver afeto em grupo? Como “devolver visão a cegos, curar
coxos e estropiados, limpar leprosos, expulsar demônios”?
Muitos adeptos conhecem a profundidade dos mecanismos
desencarnatórios à luz dos princípios espíritas, entretanto, temos constatado
quantos chegam por aqui em deploráveis condições por não se imunizarem contra
os padrões morais infelizes e degeneradores.
A melhoria das possibilidades do centro espírita indiscutivelmente
facilitará novos tempos para o pensamento espírita, haja vista que estaremos
ali preparando o novo contingente de servidores da causa dentro de uma visão
harmonizada com as implicações da hora presente. Dessa forma, estaremos
retirando a Casa da feição de uma “ilha paradisíaca de espiritualidade”,
projetando-a ao meio social e adestrando seus partícipes a superarem sua
condição sem estabelecer uma realidade fictícia e onerosa, insufladora de
conflitos e de medidas impositivas, longe das reais possibilidades de
transformação que a criatura pode e precisa efetivar em si mesma.
Interagindo com o meio em permuta incessante de valores e
experiências, o centro espírita sai da condição de um reduto isolado no
cumprimento de sua missão, e passa a delinear a formação de uma rede de
intercâmbios, fenômeno esse que vem abarcando a humanidade inteira sob a
designação de globalização.
Contudo, a interação da casa doutrinária com o meio deve ser ativa
a ponto de transformar-se em pólo irradiador de benesses a outras co-irmãs e,
igualmente, para o agrupamento social no qual encontra-se inserida.
Por isso, mais uma vez torna-se imprescindível renovar conceitos e
reciclar métodos, a fim de atingirmos os patamares de instituições
multiplicadoras da mentalidade imortalista e fraternal.
Esse processo de interação social reclama posturas novas,
dentre elas a de abrir canais de permanente relação inter-institucional, na
qual o centro espírita catalise fulcros de cultura e modelos experimentais,
transformando-se em ambiente de diálogo e convivência para dirigentes e
trabalhadores de outros grupos afins, passando suas vivências e aperfeiçoando
suas realizações ao tempo em que converte-se em pólo espontâneo da união entre
co-idealistas, no regime do mais livre pluralismo de concepções acerca dos
postulados espíritas.
Mais uma vez a visão futurista do Codificador, prenunciando esse
tempo, levou-o a declarar: “esses grupos, correspondendo-se entre si, visitando-se,
permutando observações, podem, desde já, formar o núcleo da grande família
espírita, que um dia consorciará todas as opiniões e unirá os homens por um
único sentimento: o da fraternidade, trazendo o cunho da caridade cristã”. (14)
A criação desses pólos são medidas salutares contra o
isolacionismo e, pela sua característica essencial de fortalecimento de idéias,
ensejam uma relação mais participativa, descentralizadora, operando entre os
grupos a prática da solidariedade.
Incentivaremos não só a renovação cultural nas casas espíritas,
mas também a estruturação das entidades específicas que, pela sua
neutralidade institucional, obterão um trânsito mais intenso junto à seara na
dinamização de um arejamento cultural, no atendimento das necessidades humanas
que abarrotam em solicitações e demandas.
Há serviço intenso a realizar, e devemos ver com bons olhos a
multiplicidade de funções e a diversificação de medidas em favor dos clamores
da sociedade.
Os dirigentes, ricos de boa-vontade e espírito cooperativo,
anseiam por novos horizontes, todavia, tem faltado quem se disponha a dividir
vivências ou a edificar um ambiente que se constitua verdadeira oficina de
idéias e diálogo para a criação de caminhos novos.
Serão esses pólos as cooperativas de afeto cristão que
permitirão aos servidores e condutores das responsabilidades doutrinárias
renovarem esperanças, quebrando os circuitos de rotina dentro do labirinto de
obrigações a que se renderam no ramerrão do centro espírita. Serão pólos de
arejamento e solidariedade mútua regidos por intenso e espontâneo desejo de
somar que, em última análise, é a unificação no que de mais sublime exprime o
sentido dessa palavra.
UM PROGRAMA RENOVADOR PARA O CENTRO ESPÍRITA
Estamos, portanto, meus irmãos e amigos do coração, instaurando o
período da unificação ética, da maioridade das idéias espíritas através do
melhor aproveitamento individual dos seareiros dispostos a mais amplos vôos de
renúncia, sacrifício e amor à causa.
Assim, todos nós aqui hoje reunidos estamos convocados a cerrar
esforços continuados ao programa renovador de nosso abençoado movimento
espírita, com vistas a ampliar na humanidade a mensagem de esperança e
libertação trazida por Jesus e explicada com lucidez pelo trabalho de Allan
Kardec.
Estamos em campanha.
Campanha pela unificação com amor.
Campanha pela renovação das atitudes.
Temos um problema na Seara: as más atitudes.
Temos uma solução para a Seara: novas atitudes. Seja essa a nossa
campanha no bem pelos tempos novos a que todos somos chamados.
Todos aqui, mormente os que se acostumaram à docilidade e ternura
de meu coração, não se surpreendam com a franqueza de minhas palavras.
Estejam certos que o sentimento é o mesmo e sempre será.
A clareza e a definição de minha fala são em obediência
incondicional e servil a ordens maiores que cumpro em nome do Espírito Verdade.
Sem perder a fraternidade, vós outros que têm o acesso livre pela
palavra mediúnica, levai essa mensagem ao conhecimento de todos. Aqueles que
hoje aqui se encontram temerosos ante as novas chances que logo envergarão na
carne, levai convosco a esperança de que em plena infância serão bafejados
pelas claridades desse momento de renovação, dentro e fora das movimentações espirituais
a que se matricularão. Aqueles que servem a outras fileiras de obrigações junto
à humanidade, cooperem com nosso ideal incentivando a superação dos
preconceitos e abrindo picadas para a penetração das idéias espíritas frente à
sociedade.
Enaltecendo a comemoração, da qual ainda agora quase todos aqui
presentes tivemos a benção de acompanhar junto aos irmãos no Congresso Espírita
Brasileiro, peçamos ao Senhor da Vida que fortaleça sempre os ideais em nosso
coração, para que as medidas salvadoras representem mãos estendidas e guiadas
pelo coração sempre pulsante no bem, em favor das lutas e do aprendizado
daqueles que receberam de Deus a gloriosa oportunidade de regressarem à carne
no torrão brasileiro, fruindo das benesses do Consolador Prometido. Amparemos
nossa bendita Seara em seus novos dias, relembrando sempre a nossos tutelados a
importância do amor.
Rememoremos como fonte inspiradora de nossa campanha a sublime e
inesquecível fala de nosso Mestre: “Nisto todos conhecerão que sois meus
discípulos, se vos amardes uns aos outros”. (15)
ENCONTROS INESQUECÍVEIS
Terminada a fala de nosso benfeitor Bezerra, estávamos todos como
que hipnotizados pelo afeto e pela autoridade com que externava seus conceitos.
Dissera ele muito bem acerca da surpresa que, durante muitos
trechos de sua alocução, tomou-nos de assalto graças à franqueza e clareza com
que explanava suas idéias.
Ele fora claro e fraterno, sendo que estávamos habituados somente
com sua paternal e ilimitada complacência para com a extensão de nossas
necessidades.
Percebia-se durante sua apresentação que irradiações muito
intensas vinham de esferas superiores, para nós ainda desconhecidas, deixando
evidenciar que, além de sua grandeza espiritual peculiar, realmente ele cumpria
a determinações excelsas frente aos assuntos dissertados.
Terminada a palestra, tivemos o ensejo de presenciar encontros
inesquecíveis que merecem nossos registros, para que os corações na Terra
meditem sobre as realidades impostas pela imortalidade na jornada dos antigos
servidores da coletividade espírita.
Destacamos o abraço fraterno entre Torteroli e Bezerra que se
olharam como irmãos queridos de longa caminhada; em canto discreto do salão,
percebíamos um dos mais procurados para o abraço afetivo e a palavra amiga que
era Jean Baptiste Roustaing, cercado por amigos da Itália e da França; em outra
cena presenciamos amigos queridos vinculados às propostas do Pacto Áureo
discutindo as graves medidas que os aguardavam: ali estavam Wantuil de Freitas,
Manuel de Quintão, Armando de Oliveira Assis, Osvaldo de Mello, Djalma
Montenegro Farias, Militão Pacheco e outros mais. Era indisfarçável o interesse
de todos em fraternizar com os nomes que fizeram história no país como Rui
Barbosa e Olavo Bilac, cercados por Freitas Nobre, Carlos Imbassahy e outros
políticos e religiosos. Observávamos também as caravanas vindas de vários
estados e países reunindo-se a esse ou àquele coração de seu interesse no campo
do aprendizado, e no caso da Caravana Mineira, composta por um grupo valoroso
de servidores, estava ao centro das considerações o nosso estimado Antônio Lima
tecendo alvitres quanto ao futuro.
Para nós, porém, entre tantos encontros e reencontros, ficou
gravado no coração o instante de abraçarmos o nosso benfeitor Bezerra.
Acompanhando-nos, discreta como de costume, a nossa Ermance
Dufaux, que tem sido o coração de nossas movimentações espirituais.
Constatei surpreendido que os olhos de Bezerra dilataram-se com o
aproximar de Ermance; ele, que sempre ensaiava um termo ou outro na sua
costumeira ternura, emudeceu-se, pegou as mãos delicadas da nossa amiga,
beijou-as e disse:
“Filha, suas mãos representam troféus luminosos da vitória do Espiritismo
nascente, quando as cedeste para a sublime consecução de “O Livro dos
Espíritos”, e se anseias por torná-las úteis novamente nos serviços do bem,
providenciaremos rumos a teus inspirados desejos.”
Ermance enrubesceu e lacrimejou, porque o sentimento elevado de
Bezerra lhe havia sondado as profundezas da alma, percebendo-lhe a súplica
velada na intensa disposição de contribuir com os destinos novos da causa.
Ela, num ímpeto generoso, mas guardando a típica fleuma de uma
dama francesa, osculou com um fraterno afago a cabeleira do paladino, e sem dizer
uma só palavra abraçou-o incontinente, com efusivo amor.
Terminada a atividade, olhamos para o infinito no firmamento e
ficamos a meditar longamente sobre o que nos aguardava no futuro...
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
(1) Realizado na cidade de Goiânia a 05 de outubro de 1999,
em comemoração ao cinqüentenário do acordo de unificação, o Pacto Áureo.
(2) Nota da editora: o texto que segue é a descrição que o autor espiritual fez
da palavra de Bezerra de Menezes.
(3) Congresso Internacional de Espiritismo em 1925 coordenado por Leon Dénis.
(4) Mensagem recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, na Comunhão
Espírita Cristã, em 20 de abril de 1963, Uberaba - MG, publicada na revista
Reformador de dezembro de 1975.
(5) Mateus, 20:26 a 27.
(6) Obras Póstumas, segunda parte, Credo Espírita, Preâmbulo.
(7) Mateus, 5:46.
(8) A Gênese, Allan Kardec, capítulo XVII, item 32.
(9) Mateus, 10:1.
(10) O Livro dos Espíritos, questão 919a.
(11) Obras Póstumas, biografia de Allan Kardec.
(12) O Livro dos Médiuns, item 350.
(13) I Coríntios, 13:1.
(14) O Livro dos Médiuns, item 334.
(15) João, 13:35.